Recensão de «A Violação das Mulas» no Diário Digital

Posted on 18/01/2011


A recensão foi escrita por Sandra Gonçalves, e pode ser lida aqui ou seguindo este link: A Violação das Mulas no Diário Digital

«A Violação das Mulas», perversão hilariante que vicia
Texto: Sandra Gonçalves

Maria O. tem mais de 20 anos, nasceu em Gaia e, segundo consta, tem escrito muito. É tudo o que sei da escritora. A Eucleia Editora acaba de publicar dela «A Violação das Mulas», um livro que denuncia uma mente intricada. Em poucas páginas, faz um retrato sórdido-hilariante deste país que é Portugal, com tudo o que tem de bom e de mau, mas com especial enfoque no lado mais sombrio.

Com uma linguagem caustica, imprópria para quem não gosta de ouvir praguejar, exagera no cenário, mas sempre evocando a realidade. «A Violação das Mulas» – título bem sugestivo – é narrado por Isaac Zibeta, filho ainda por nascer de um estranho casal: Quim Tiliano Zibeta e Possidónia. Quim é um artista muito peculiar… gosta de esculpir pénis e outras figuras sempre com conotação sexual. A história, passada numa pequena vila portuguesa (só me vem à cabeça a palavra pardieiro para melhor a descrever), começa com este personagem a olhar obcecadamente para a robusta empregada doméstica e a desejar febrilmente mamar do seu peito. Zibelina, assim se chama a empregada, acaba de ser mãe, e revela os seios inchados sob a bata. A narrativa não deixa respirar, é perturbadoramente chocante e invasiva, mas ao mesmo tempo viciante.

O desejo de Quim não só é consumado como é premiado com o coito, mas o que é bom nem sempre acaba bem e os dois são surpreendidos a fazer «o amor» por Possidónia. Zibelina é expulsa de casa com o filho nos braços, mas algumas páginas à frente e algumas aventuras mais, é convidada a regressar. A partir daqui a bizarria adensa-se. Possidónia não é uma mulher comum (ou talvez seja, quem sou eu para tecer considerações sobre o que é ser comum ou não). Gosta de sexo em grupo e, em simultâneo, de molestar crianças (sim, leu bem, também eu fiquei atónita).

Falta ainda um quarto elemento: o melhor amigo de Quim, Deivid, um professor de piano na fase do armário, ou seja, ainda não se assumiu como homossexual.

Quim, Possidónia, Zibelina e Deivid acabam por se envolver numa estranha relação a quatro que pressupõe sexo com todas as variáveis contempladas. A leitura torna-se ainda mais interessante quando o vizinho da frente que acabou de instalar um telescópio junto à janela começa a observar estas estranhas práticas.

As situações caricatas sucedem-se numa história cheia de peripécias e reviravoltas alucinantes. Uma leitura divertida mas nem por isso ligeira. Maria O., com o seu sarcasmo, não dá tréguas. «A Violação das Mulas» é chocante, sórdido, perverso e, simultaneamente, hilariante. Serei normal em regozijar-me com tamanha bizarria? Tenho as minhas dúvidas.

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