Recensão de «Os Contos Completos de Ambrose Bierce» – Parte 1

Posted on 17/02/2011


Mais uma recensão da nossa “habituée” Carla Ribeiro, desta feita de parte de Os Contos Completos de Ambrose Bierce. Como sempre, uma recensão bem escrita e fundamentada.

Blogue As Leituras do Corvo

«Uma explicação prévia… Tratando-se de um livro que reúne um total de 92 contos, poderão imaginar a dimensão de um comentário que abrangesse cada um dos textos. Assim, este interessante livro, de conteúdos tão diversos como cativantes, será objecto de vários posts ao longo dos próximos dias, de modo a percorrer a minha opinião sobre cada um dos contos sem que o referido comentário se torne demasiado cansativo.

Começo portanto com A Morte de Halpin Frayser, onde um homem se descobre numa floresta… para se ver face a face com uma ameaça tão mais assustadora por não pertencer ao mundo dos vivos. Um conto misterioso e envolvente, fascinante nas descrições mais sombrias, mas principalmente na medida de inexplicável que deixa no ar.
Parker Adderson, Filósofo conta a história da última noite de um prisioneiro de guerra e da sua peculiar visão da morte. Curiosa a forma como o autor mistura filosofia, uma certa dose de humor e algumas acções imprevisíveis para criar uma história surpreendente.
Segue-se As Atividades Noturnas em Deadman’s Gulch, onde, numa noite clara, o único habitante da localidade recebe um hóspede. E conta-lhe uma história. Descrições precisas, que dão vida a um episódio estranho e bastante enigmático, onde parte do mistério é deixado à imaginação do leitor são a principal força deste conto.
O Tordo-dos-Remedos apresenta um sentinela perdido no próprio posto, atormentado pelo som de movimentos na escuridão. Intrigante, impressionante na descrição das percepções nocturnas e com um final surpreendente, ainda que um pouco abrupto.
Uma Recordação de um Naufrágio, por sua vez, conta a história de um homem cruel num navio prestes a afundar-se, num conto breve, mas que impressiona principalmente no retrato da insensibilidade do narrador/protagonista.
Mais uma história de fantasmas, desta vez Um Pequeno Vagabundo. Particularmente marcante pela força das descrições, apesar de um início algo confuso. Escrito, ainda assim, de forma impressionante e com um final lindíssimo.
Segue-se o meu conto preferido de entre os referidos nesta primeira parte. A História de uma Consciência decorre, mais uma vez, em cenário de guerra e apresenta a história de uma vida salva no passado, e a visão de um reencontro como causa de morte. Intenso, com uma escrita soberba, mas marcante acima de tudo pela força de princípios que representa.
Um Habitante de Carcosa apresenta uma descoberta de valor incalculável, mas também uma interessante visão da morte e do além-morte. Intrigante, envolvente, com descrições magníficas e um final de impacto. Uma Revolta dos Deuses, por sua vez, fala de um desentendimento familiar… de dimensões catastróficas. Sarcástico, com algo de surreal, um conto particularmente divertido.
É com uma execução iminente que abre Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek. Um relato de luta contra a morte, bastante descritivo, mas intenso, sendo particularmente impressionante a descrição da luta pela sobrevivência, cujo impacto se torna mais forte ante a revelação final.
A Alucinação de Staley Fleming conta como um homem apela à ajuda de um médico para afastar o que julga ser uma alucinação recorrente. A ideia é bastante interessante, ainda que a brevidade do conto deixe a sensação de uma tensão menor que a que poderia ser transmitida ao leitor.
O Comandante do Camel é a história de uma expedição atribulada. Com bastante de improvável mas com um humor intrigante, uma interessante visão dos efeitos secundários da suposta literatura “popular”.
Um Cavaleiro no Céu começa com um sentinela adormecido, seguindo para uma visão impressionante e um dilema entre dever e emoção. Muito bem escrito e com descrições cativantes, uma boa história, apesar do final algo abrupto.
Ainda os fantasmas, em A Casa Fantasma, apresentando a inevitável visita a uma casa assombrada. Sombrio e intenso, apesar da brevidade do texto e de alguns elementos mais previsíveis.
Termino com o conto Óleo de Cão, uma variante particularmente sinistra do fabrico do produto que dá nome ao texto. Uma história perturbadora, principalmente pela forma quase descontraída com que o narrador apresenta toda a situação.

Vai longo o comentário, pelo que, por agora, me fico por aqui. Esta opinião continuará em futuros posts.»
Anúncios
Posted in: Sem categoria