Recensão a “Quanto mais depressa ando, mais pequena sou” no Diário Digital

Posted on 24/11/2011


Recensão a Quanto mais depressa ando, mais pequena sou no Diário Digital (por Sandra Gonçalves). Pode ser lida aqui: Quanto mais depressa ando, mais pequena sou no Diário Digital

Skomsvold: Mathea à espera dos sete palmos de terra

Texto: Sandra Gonçalves


Os nórdicos têm qualquer coisa de extraordinariamente peculiar, pelo menos no que se refere à escrita. Será do frio? Da paisagem glacial com as suas montanhas, tundras e fiordes? Dos Invernos rigorosos? Será um acaso que da Noruega saíram três laureados com o Nobel da Literatura? Kjersti Annesdatter Skomsvold, com o seu livro de estreia, «Quanto mais depressa ando, mais pequena sou» (Eucleia Editora), pode muito bem vir a ser mais uma, daqui a uns tempos. Uma norueguesa cuja imagem de marca é a anti-indulgência, combinada com uma sensibilidade e criatividade únicas.

«Quanto mais depressa ando, mais pequena sou» é um livro que quase cabe na palma da mão. Mas os livros não se medem com quadrícula. No seu interior, encontramos duas personagens muito atípicas. Mathea Martinsen e o seu marido, Epsilon.


Mathea é obcecada por tapa-orelhas. Já tricotou mais de 70 para o Epsilon, que se queixa de ter sempre muito frio nas orelhas. É também fascinada por rimas e diz-se boa a baralhar cartas – «sete é o número correcto de vezes que se deve baralhar» – e também a estrear rolos de papel higiénico. É capaz de descolar a primeira folha sem nunca a rasgar.

Mathea sempre foi anti-social. Mas agora, perto dos 100 anos, sente uma tristeza imensa. Pressente que irá morrer antes que alguém alguma vez se tenha apercebido que viveu. Está quase sempre deitada na cama, ou à frente da televisão, e gostaria de poupar o pouco tempo que tem de vida até saber o que fazer com ela.

Agora, velha e incontinente, está a preparar uma cápsula do tempo, onde coloca todas as suas coisas, até os dentes que tem vindo a perder. A ideia é enterrá-la, para que um dia alguém a encontre.

Devido à sua aversão pelo convívio social, quase nunca sai de casa. Diz que há demasiadas pessoas a circular, e depois há o Epsilon, que está em casa. Ela e o Épsilon são um só, embora ele saia, tenha um emprego. No recreio da escola, onde não brincava com ninguém, Mathea foi atingida por um raio que lhe acertou duas vezes na testa. E foi assim que conheceu aquele com quem viria a casar.

Sozinha em casa, pensa que estar morta deve ser parecido com não ter nascido, e isso não é assim tão mau. Mas sabe que sentiria saudades de uma série de coisas, como as árvores com neve, das mãos sob a roupa e de laranjas. Não obstante – reflecte -, estar morto é mais especial do que estar vivo, «porque imensas pessoas recebem mais atenção depois da morte do que alguma vez tiveram quando estavam vivas». No caso dela, tem a certeza que irá receber praticamente a mesma.

Skomsvold invoca frequentemente a mitologia (as notas em rodapé ajudam o leitor a perceber o contexto). Epsilon é um homem baixo que decidiu colocar o espelho por cima do lavatório demasiado alto. Mas diz que é feliz desde que consiga ver a sua risca ao lado. Já Mathea estica as costas e põe-se em pontas dos pés e, assim, consegue ver a metade superior do seu rosto no espelho, tal como Nǿkken, uma figura mitológica nórdica que representava os espíritos das águas com forma humana. Nǿkken ficava com metade da cabeça fora de água.

Mathea costumava ler a necrologia apenas para se regozijar sobre aqueles a quem sobrevivera, mas depois deixou-se disso. Agora questiona se pode submeter o próprio obituário em adiantado e pedir ao jornal para o imprimir quando chegar o momento.

Os dois nunca tiveram filhos, mas tiveram um cão, o Stein, que significa pedra, e que já morreu. E, na prática, ela não conhece mais ninguém a não ser o Epsilon.

Nas fugazes saídas à rua, sente-se a maior quando ultrapassa as pessoas, não importa se são homens débeis com andarilho. Reconhece que não é socialmente útil, mas sabe-lhe bem.

Skomsvold criou uma personagem adoravelmente absurda, tanto na sua linguagem, como nos seus pensamentos e acções, e apresenta-nos uma novela sobre a solidão, sobre o ser humano e as suas relações e que retrata na perfeição a ansiedade social.

O livro tem uma estrutura narrativa muito invulgar. Surpreendente, mesmo. Arrebata e não deixa de maravilhar a cada novo capítulo.

«Quanto mais depressa ando, mais pequena sou» é um livro muito sério. Mesmo sério. No entanto, cheio de humor e com uma prosa inusitada simplesmente deliciosa. Apesar de assentar na morte, num misto de horribilidade e fascínio, não tem um pingo de indulgência. Parece desconcertante, mas tudo encaixa. Recomendo que este texto seja lido ao som de Åge Aleksandersen – Levva Livet (http://www.youtube.com/watch?v=GMoud3dub6U). A resposta, encontrá-la-ão no interior do livro.

Kjersti Annesdatter Skomsvold nasceu em Oslo em 1979. «Quanto mais depressa ando, mais pequena sou» venceu o Prémio Tarjei Vesaas. Actualmente, está traduzido em sete línguas. A versão portuguesa foi traduzida por João Reis.

Advertisements
Posted in: Sem categoria