Recensão a “Quanto mais depressa ando, mais pequena sou” na Time Out Lisboa

Posted on 08/12/2011


Excelente recensão a Quanto mais depressa ando, mais pequena sou na Time Out Lisboa (por Hugo Pinto Santos).

 

 

“Neste brilhante livro de estreia, viaja-se até à «última estação antes da morte» (p.129). Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou é um romance que alia uma narrativa rigorosa, de escrita impecável, a uma análise sem dó nem piedade das circunstâncias mais frágeis da vida. Mathea, uma idosa anti-social, é como um novelo virado para dentro. A morte passa a ser a palavra terrível que lhe baila na boca e, sem sair nem se tragar, forma a indigestão daquela alma, ou algo pior. Com a rispidez desconcertante de uma criança – «Quem me dera ter só uma perna.» (p.62) –, mas sem a sua inocência, a protagonista questiona tudo, quase inconsciente, como um buraco num caminho de cabras, onde o leitor quer cair.

Mathea tenta travar o remoinho de um desespero que nem ela parece perceber. Busca rimas, como o marido, Epsilon (o nome não é acaso), acha na estatística o seu trabalho e narcótico. Um emaranhado estranhamente destro (re)concilia a corrente do pensamento, a dúvida, a mágoa, de modo tão surpreendente como maleável – «Já não gosto de ficar deitada de costas à noite, sinto-me como um cadáver, especialmente quando junto as pernas» (p.59) –, pela estranha serenidade desta linguagem, mesmo ao vasculhar os despojos da vida – «cada vez há menos de mim» (p.68).

A protagonista lembra a personagem de Sartre que se alegrava por ter partido uma perna, porque, assim, tinha acontecido alguma coisa. Espera que a vida aconteça, e quando ela não lhe faz o obséquio, caminha para o último reduto – «Estou debaixo de água, e é escuro e límpido.» (p.142)” (Hugo Pinto Santos)

 

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