Entrevista da Eucleia n’ “O Estado de São Paulo”

Posted on 26/12/2011


Entrevista da Eucleia n’ “O Estado de São Paulo“, um dos maiores jornais brasileiros, a propósito da publicação de Livro Ruído, de Davi Araújo (saída no dia 22 de dezembro de 2011).

Pode ser lida aqui: Eucleia no Estadão

Davi contra Golias

Donos de editora em Portugal, irmãos ousam ao investir em poeta brasileiro

22 de dezembro de 2011
PAULO NOGUEIRA , ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

Em pleno turbilhão de uma crise econômica que abala os alicerces da União Europeia e ameaça desintegrar o próprio euro, uma pequena editora portuguesa rema contra a maré e desafia a conjuntura adversa, no melhor estilo Davi contra Golias. E uma das armas da editora Eucleia (a deusa grega da boa reputação e da glória) é um poeta brasileiro chamado… Davi. A ousadia parece ainda mais temerária quando se sabe que a poesia de Davi Araújo, de 31 anos, é inédita no Brasil. Enfim, uma arma secreta.

Audácia sim, mas não bravata fútil – é o que garantem os jovens donos da Eucleia, os irmãos João Reis, de 26 anos, e Natália, de 22 anos. Tradutores poliglotas, são pau para todas as obras que publicam, com exceção do design dos livros, aliás esmeradíssimo.

No Hemisfério Norte e sobretudo na Europa, o mercado editorial patina numa bifurcação: de um lado, editores de perfil ‘indie’ e culturalista; do outro, colossos caçadores de best-sellers, açambarcadores de casas editoriais, para quem o livro é uma mercadoria e ponto. Em Portugal, a tentacular editora Leya (também estabelecida no Brasil) nasceu há três anos, através da aquisição meteórica das cinco maiores casas editoriais do país. O proprietário da Leya, o magnata Paes do Amaral, também dono de um canal de TV, confessou que “não tinha o hábito de ler”.

Mas não será um suicídio comercial publicar um autor estrangeiro ainda inédito na sua própria terra, durante uma crise sísmica? Os irmãos Reis discordam: “Não achamos que essa circunstância afete muito a opinião do leitor português. O maior risco reside no fato de se tratar de poesia – e em língua portuguesa. Aqui, é tão arriscado editar um português desconhecido quanto um brasileiro. Claro que a crise atrapalha – até aos grandes -, mas uma empresa pequena que não faz loucuras e investe na qualidade pode vingar, se pensar a longo prazo”.

Davi Araújo não é o único brasileiro no catálogo da Eucleia, que só tem um ano de vida. Há outro novíssimo (Botika, autor de dois romances já lançados no Brasil) e um canônico (Aloísio Azevedo e seu O Cortiço). Nesse caso, a nacionalidade é mais um obstáculo, como admitem os Reis: “Somos grandes apreciadores da literatura brasileira. Infelizmente, em Portugal ela está pouco divulgada e o público mostra desinteresse. A crítica também não ajuda, pois ignora os autores brasileiros”.

Mas há aliados inesperados: acontece que as redes sociais não se limitam a irrigar a Primavera Árabe ou a atiçar os Indignados espanhóis. Davi Araújo contatou a Eucleia através do Facebook, solicitando a amizade de João e Natália. Depois, submeteu-lhes a sua obra, que foi analisada e aprovada.

Livro Ruído, de 220 páginas (algo raro para uma estreia), saiu em setembro, com tiragem inicial de 500 exemplares. O autor revela uma voz singular e madura, e uma expressão lírica sedutora, esgrimindo ampla gama de recursos poéticos. Há uma sincronia feliz entre significado e significante, como no poema Vernaculáceo:

“Aja o som em cada pranto, haja o rito…

aja o dom em cada santo, haja o mito…

e o espanto, portanto;

haja o dito… aja o bom em cada quanto,

haja o grito… aja o tom em cada canto”.

A destreza verbal não se compraz meramente num malabarismo ornamental. Por vezes desconcertante, a imagética é sempre límpida e objetiva, ainda que impressionista. Os versos ora roçam o sálmico, ora o resolutamente profano, quase o blasfemo. A verve constante exerce um efeito de distanciamento e desarma o sentimental (mas não o sentimento), como no verso: “A boemia é dose”. Ou neste outro: “Nado na água e trepo em árvores, apenas respectivamente”.

Davi Araújo organiza judiciosamente o uso de coloquialismos, cuja incontinência poderia resvalar para o prosaico e o trivial. Mas nem sempre se esquiva à tentação das aliterações que perturbam o sentido:

“Tabuada iníqua que sempre míngua linda, ou acróstica.

Língua calejada de uma cobra

que nos linka acrobática. Broca que me marca a cabeça

como certa cor acústica.

Cigana que grita contra algum kharma, flor ou suástica”.

O melhor do poeta está na reflexão sobre o ofício poético e nas ruminações sobre o devir ontológico: “Quando o tempo chegar/Ele não irá mais embora/Vamos nos desgovernar agora/O tempo há de reinar, senhora”.

Será que esse Davi brasileiro jogará em casa? O exemplo português está aí. Ele lembra que se a literatura nem sempre é um negócio da China, também não precisa se reduzir às bugigangas postiças de uma loja chinesa.

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