Entrevistas à Eucleia Editora

Posted on 01/03/2012


Deixamos aqui 2 entrevistas recentemente feitas aos editores da Eucleia.

Entrevista ao site de livros Falling into Infinity (http://www.fallingintoinfinity.com/2012/02/conversas-em-torno-dos-livros-eucleia.html)

Apesar do destaque dado aos autores nórdicos, a Eucleia apresenta um catálogo variado. Quais os critérios que orientam a vossa escolha?

 

São, essencialmente, critérios de qualidade. Não fazemos restrições geográficas, temporais ou estilísticas – tentamos, sobretudo, que todos os nossos autores sejam inegavelmente bons, que se lhes posso atribuir talento e mestria literária. Acontece, no geral e muito por causa dos nossos próprios gostos, que todos eles acabam por partilhar caraterísticas em comum, como o humor negro, o sarcasmo, o pendor melancólico, a agudeza na crítica social, entre outras coisas que não permitem ao leitor a indiferença.

 

Iniciaram a vossa actividade num período conturbado, tanto pelo panorama económico, como pelas mudanças drásticas de que o sector editorial tem sido alvo. A recente proliferação dos eBooks é, na vossa opinião, uma ameaça, uma oportunidade, ou um misto de ambas?

 

Neste momento, em Portugal, não são, nem por sombras qualquer tipo de “ameaça” ao livro impresso. De qualquer modo, acreditamos que são apenas dois meios que servem para fazer circular um conteúdo que, independentemente do veículo, não deixa de ser o que é – uma arte. São, ou podem ser, perfeitamente complementares. A nosso ver, nada iguala o livro impresso enquanto objeto físico, portanto, se ele acabar, não será certamente por única e exclusiva culpa dos ebooks. Aliás, se isso vier a acontecer, estaremos talvez perto da rutura total, ou até do fim do mundo.

 

Têm ao vosso encargo a escolha, tradução, revisão e distribuição dos títulos que editam. Qual a principal recompensa que obtém do vosso esforço, o motivo que vos leva a enfrentar um trabalho tão exigente a nível de trabalho, e tão pouco gratificante em termos financeiros?

 

Temos um grave problema: tendências obssessivo-compulsivas 🙂

 

As dificuldades que enfrentam devem-se, em parte, aos hábitos de leitura dos portugueses. Que medidas apontariam para a melhoria desses hábitos, contribuindo assim para a viabilidade das editoras que não estão dispostas a sacrificar a qualidade em prol de aspectos comerciais?

 

É uma questão de fundo. Seria bom não se tratar as criancinhas como se fossem atrasadas mentais. Dever-se-ia promover, efetivamente, a leitura nas escolas e lutar contra a perseguição e a chacota às pessoas que lêem. Neste país, infelizmente, tem-se em muito má conta o trabalho intelectual e cultural – julga-se que se escreve e que se edita porque apetece e não porque também por aí se possa, e se deva, ganhar dinheiro. Não se valoriza a excelência. Aplaude-se a mediocridade. A principal medida que sugerimos é o abate total dos cartéis da edição em Portugal (mafiosos que impingem tremendas porcarias às pessoas, quando elas próprias, muitas vezes, não as conseguem ler de tão más que são!). O resto passa por uma mudança de mentalidade tão profunda e gigantesca, a que nós já não assistiremos, visto que estamos com um atraso superior a cem anos, em relação à restante Europa.

 

Finalmente, que novidades podemos esperar da Eucleia num futuro próximo?

 

Se ainda estivermos vivos, teremos uma Eucleia a um ritmo muitíssimo mais brando, mas sempre muito rigorosa. Só deveremos publicar três livros este ano, dois deles extremamente volumosos. Vamos sobrevivendo.

 

 

O catálogo da editora pode ser consultado no seu website oficial, incluindo excertos das obras publicadas e recensões das mesmas. Podem também acompanhar a Eucleia através da sua página no Facebook. Os meus agradecimentos ao João e à Natália Reis pela sua simpatia e disponibilidade.

Entrevista no P3 (Público) – http://p3.publico.pt/cultura/livros/2152/seleccao-traducao-e-revisao-os-irmaos-reis-fazem-tudo-na-mais-jovem-editora-do-p

Livros

Selecção, tradução e revisão: os irmãos Reis fazem tudo na mais jovem editora do país

Natália e João Reis, com 23 e 27 anos, fundaram a Eucleia Editora em 2010. Mas viver dos livros ainda é um sonho distante

Texto de Mariana Correia Pinto • 04/02/2012 – 12:21

Só depois de o nome estar registado, João e Natália Reis repararam no trocadilho: Eucleia – nome da deusa grega da glória e da reputação -, pode ser confundido com “eu que leia”. E ainda bem – a troca vem mesmo a calhar quando se trata do baptismo de uma editora.

Os livros são um vício para estes irmãos, que criaram uma editora em tempos de crise. A decisão não foi repentina. Foi um “processo metódico”, maturado durante o estudo na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e concretizado mal acabaram o curso, em 2010.

Natália tem agora 23 anos, João 27. São os mais jovens editores do país, na editora que mais livros nórdicos lançou em 2011. Mas João Reis garante que “a geografia não condiciona as escolhas” da Eucleia Editora. A selecção é feita pelos gostos pessoais destes irmãos de Vila Nova de Gaia, que se intitulam de “ecléticos” – estão abertos aos clássicos e aos contemporâneos, à ficção, poesia ou teatro, aos autores lusófonos ou não. Escolhem sempre “obras de qualidade” e quase sempre livros com “ironia, sarcasmo, melancolia e crítica social” subjacentes.

Passar os dias a ler 

É sobretudo das muitas horas que dedicam à leitura que saem os nomes dos autores que querem publicar – “Vejo a descrição do livro ou alguma recensão e a partir daí já percebo se pode ou não interessar. Depois leio e se ficarmos interessados falamos com o agente para saber quais são os direitos, etc”, explica João Reis.

A primazia dos autores do Norte da Europa pode ser explicada pela formação de deste jovem de 27 anos: traduz inglês, sueco, norueguês, dinamarquês e é o único português a traduzir directamente do islandês. Natália Reis traduz inglês e espanhol. Esta valência é também o que lhes possibilita ter uma editora: é que todo o processo –escolha, tradução e revisão – é feito por eles.

Quando a Eucleia Editora nasceu, os irmãos Reis não tinham “qualquer ilusão de ter um negócio de milhares”, diz João. “Já sabíamos que os hábitos de leitura dos portugueses eram maus, mas percebemos depois que eram ainda piores”, lamenta Natália, formada em Línguas e Literatura Portuguesas.

Ocupar uma lacuna

O que a Eucleia faz “não seria, à partida, feito por mais ninguém”, acredita o jovem editor. “São livros que não têm características muito comerciais, pensados mais a fundo e menos na novidade”.

Viver de livros em Portugal é possível? “Para já não”, admitem. Até agora, a Eucleia Editora tem 13 livros publicados (cinco deles traduzidos por João, um traduzido por Natália), tendo cada um uma tiragem média de mil exemplares (os de poesia chegam só aos 500 e é coisa “para durar uma eternidade em algumas superfícies”, conta João, formado em Filosofia). Números que forçam os irmãos a continuar a viver – e a trabalhar – em casa dos pais.

A dedicação aos livros não é coisa de família, mas o gosto pelos livros vem de hábitos criados desde muito cedo. Não se lembram quantos livros passaram pelas mesinhas de cabeceira lá de casa, mas sabem que foram “uns milhares”. Conselhos de leitura? “A Casa Ancestral de L.” (primeiras páginas, em pdf), de José Gonçalves Gomes, escolhe Natália; A Arte de Chorar em Coro (primeiras páginas, em pdf), de Erling Jepsen, recomenda João.

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