Recensões a “Necrópole”, de Santiago Gamboa

Posted on 29/01/2013


Algumas recensões a Necrópole, de Santiago Gamboa.

 

Recensão no blogue As Leituras do Corvo (por Carla Ribeiro): recensão

Depois de uma longa doença que o afastou da escrita e do mundo, um escritor vê a sua oportunidade de regressar no convite que lhe é feito para participar num congresso em Jerusalém. Tudo indica que nem o tema nem os outros convidados tenham muito a ver com o seu trabalho, mas a oportunidade é boa demais para desperdiçar. O convite é aceite. E é assim que, pouco tempo depois, o escritor se vê rodeado de estranhas personalidades com ainda mais estranhas histórias, num evento que decorre num hotel de luxo, ao mesmo tempo que as bombas semeiam destruição no exterior. É assim, também, que o protagonista se cruza com o caminho de regresso para a sua vida, mesmo enquanto ouve as tragédias pessoais dos outros participantes… e vê um deles mergulhar numa morte que o confunde.
Grande parte do fascínio deste livro está na capacidade do autor de dar vozes diferentes às suas personagens, sem nunca perder de vista a sua própria voz pessoal. O enredo decorre num congresso, e é esse cenário que permite que várias personagens contem a sua própria história na primeira pessoa, ao longo da narrativa. História que manifesta também os traços particulares da linguagem de cada uma dessas personagens, reforçando a sua identidade individual, mas em que pequenas semelhanças definem, também, o elo que as une. Além disso, o percurso das personagens não se define apenas pela história que eles próprios narram. A visão que o escritor, aparentemente elemento estranho, tem deles, realça também as suas características mais peculiares, primeiro na sua percepção enquanto observador interessado, depois, à medida que as revelações passam do passado para o ambiente do congresso, enquanto participante activo nos acontecimentos.
Há vários acontecimentos marcantes da história das personagens, o que, aliado à fluidez da escrita e ao toque de mistério introduzido pelo caso da Maturana, contribui para que a leitura nunca perca a envolvência, mesmo nos seus momentos mais divagativos. As diferentes vozes narrativas, correspondentes às diferentes personagens, leva a que algumas das situações sejam narradas com maior intensidade, enquanto que outras (com particular destaque para a narração de Supervieille) se desenvolvem de forma mais pausada e distante. Ainda assim, há, em todas elas, algo de interessante a acontecer. A esta envolvência associa-se ainda a complexidade resultante da ligação entre as várias histórias, bem como a vastidão de material para reflexão, quer sobre questões religiosas (com a história do Ministério), guerras e conspirações humanas (a questão das FARC e a própria situação em torno do congresso) ou a simples resistência individual – e capacidade de superação – ante as amarguras da vida (apresentada em toda a sua complexidade no percurso de Sabina). 
De tudo isto resulta uma obra complexa, riquíssima na construção das personagens e do contexto de onde surgiram. Uma história envolvente, muitíssimo bem escrita e com um entrecruzar de histórias e personalidades que, em toda a sua estranha complexidade, nunca deixam de exercer um estranho fascínio. Muito, muito bom.

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Recensão no site Falling into Infinity (por Ricardo Lourenço): recensão

“As vidas são como as cidades: se são limpas e ordenadas, não têm história. É na desgraça e na destruição que surgem as melhores.”
E é na desgraça e destruição que têm origem as diferentes histórias que constituem Necrópole. Histórias de desgraça e destruição, mas também histórias de resistência e perseverança, de vícios irrefreáveis e paixões reprimidas, que nos enriquecem como só as histórias da vida o podem fazer.
O romance tem início em Roma, onde um escritor Colombiano recupera de um período de doença prolongada, quando é surpreendido por um convite para um congresso dedicado à biografia, em Jerusalém. Tendo abandonado a escrita durante o seu período de convalescença (“é mais fácil prescindir do que ainda não existe nem tem forma”) e sendo a sua obra constituída essencialmente por ficção, o escritor encara o convite como um engano mas, após confirmação por parte dos organizadores do congresso, acaba por aceitar a proposta, entusiasmado pela oportunidade de se libertar do marasmo que o rodeia desde que adoeceu.
“A grandeza, em termos clássicos, pareceu-lhe uma prisão. Então, dedicou-se às coisas simples, que era um modo de dizer: à vida feliz.”
Jerusalém, devastada pela guerra, revela-se um palco bastante apropriado para o congresso, alimentando um confronto constante entre a realidade e a ficção, que incita os participantes do congresso (e o leitor) a questionarem-se acerca do poder efectivo das palavras, cuja importância parece desvanecer-se perante a proximidade de tamanho sofrimento.
A partir do início do congresso a narrativa principal é interrompida pelas diversas histórias relatadas pelos oradores convidados: o primeiro é José Maturana, ex-toxicodependente, que conta como conheceu o reverendo Walter de la Salle e o acompanhou durante o crescimento da sua influência, assim como na queda do seu império; segue-se o biógrafo francês Supervielle Miret, que apresenta a história de dois xadrezistas unidos pela amizade e pelo gosto das coisas simples; o empresário colombiano Moisés Kaplan opta por uma versão moderna de O Conde de Monte Cristo, protagonizada por um compatriota; finalmente, Sabina Vedovelli, actriz porno, expõe a sua vida, explicando o sucesso da sua carreira e a sua ambição em mudar o mundo através da arte.
É nestas histórias que a qualidade da escrita de Gamboa se evidencia. A linguagem e a estratégia que cada um dos oradores emprega para prender a atenção da assistência são perfeitamente adequadas; vozes bastante distintas mas, apesar disso, igualmente cativantes. Esta variedade resulta num arriscado mas bem-sucedido equilíbrio, que acaba por compensar a inevitável fragmentação de um romance que é composto por narrativas vagamente ligadas por algumas ideias comuns.
“Tudo isto, disse Momo, não é mais que a entrada nesse lugar que desde aqui não se pode ver, mas está lá em baixo, o vale de Josefat, de onde soaram as Trompetas do Juízo Final, pois esta cidade, no fundo, está feita para a morte. De todos por igual. Por isso é a grande necrópole do Oriente e do Ocidente.”
Gamboa não se coíbe de descrever a desolação causada pela guerra, cenas de sexo, violência ou consumo de drogas, em parte para chocar o leitor, mas acima de tudo para apresentar uma realidade que é fácil esquecer tal o distanciamento entre os países mais desenvolvidos e o resto do mundo, ou até mesmo entre diferentes classes sociais. Uma realidade que, mesmo quando não é esquecida, é muitas vezes deturpada de modo a servir interesses políticos. Assim, Necrópole é um exemplo de como a literatura pode ser preponderante contra a desinformação, abrindo os olhos dos leitores para a miséria humana que permeia a nossa sociedade como só um bom livro pode fazer.
“Vir a um lugar como este é um modo de despertar por completo, abrir os olhos e, uma vez bem abertos, não se pode permitir que se fechem; na periferia dos nossos belos países há um aterrador mundo exterior repleto de vida, um sol negro que se estende por vários continentes e que, após o primeiro impacto, revela a sua beleza. O que se vê na superfície é horrível e cruel, mas lentamente emerge a beleza; no nosso mundo, pelo contrário, a superfície é bela e tudo esplende, mas com o tempo o que se manifesta é o horror.”

 

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